AMO MUITO TUDO ISSO


domingo, 19 de abril de 2015

AMEI ESTE TEXTO... O TRATADO DOS PÁSSSAROS






Trechos de "O Tratado dos Pássaros":

Esta noite tive um sonho muito estranho, mas maravilhoso. Acordei sorrindo e com lágrimas nos olhos. Sentia-me em êxtase, como se tudo que vivi não tivesse sido um sonho....


Senti-me como se fosse um pássaro que nasceu livre, um pássaro raro, de beleza indescritível, de linhagem nobre... um pássaro celeste de penas luminosas....

Mas dos céus desci para a terra com meus amigos, e voávamos pela beleza verde destes vales sedutores, coloridos, perfumados. Fomos envolvidos, em nossa juventude, pelo brilho destas árvores transitórias, brincávamos em nossa euforia enquanto os dias se apressavam.

(...) Pouco a pouco, fomos esquecendo de nossa natureza; presos ao chão, a sombra deste esquecimento e fascínio pesava como correntes em nossos pés.

E assim sucumbimos, nos tornamos seres terrestres, que só olhavam para o chão. Presos e atados à força dessa atração, dessas correntes, dessas redes que nos envolviam, não conseguíamos nem ao menos olhar mais para o horizonte, sequer lembrávamos que estávamos numa prisão.

Foi quando, num dia, a tarde se aproximou pesadamente, colorindo o horizonte de Nostalgia, enquanto sua luz se esvanecia num vermelho de sangue, que rasgava o azul do céu.

E com o pescoço dolorido e a cabeça pesada, meus olhos foram erguidos e meu coração atraído por essa luz que desaparecia, enquanto a noite apressadamente adensava a atmosfera, abafando os sons e preenchendo a escuridão de mistério e solidão.

(...) Enquanto chorava, lembrava-me da Liberdade perdida, recordava de minhas asas... Não sabia mais o que era verdade, e o que era alucinação. Mais e mais as recordações voltavam, e cada uma delas era um duro golpe em meu coração...

Como vim parar aqui? Como permiti que me aprisionassem? Como pude esquecer meu nome? Como pude esquecer de minha casa, de meu Pai? E num grito de desespero ergui o olhar e os punhos para céu.... E lá estava a lembrança. Na luz da lua lembrei dos céus, recordei minha origem, ansiei novamente pela minha casa. (...) Mas como sair? Como nos livrar dessas redes?

Foi quando vimos um pássaro se movimentando rapidamente. Habilmente, com seu bico ele rasgava as redes e pouco a pouco se libertava. E então num movimento silencioso e rápido segurou a corrente e pulou para fora das redes, correu alguns metros e, com uma pedra em seu bico, golpeava fortemente as correntes. E finalmente arrebentou-as e, mesmo cansado e esgotado, prosseguiu.

Perplexos chamamos por ele, que explicou-nos o que fazer, mas alertou-nos para que fôssemos rápidos e silenciosos, antes que o dia surgisse. Após um grande esforço conseguimos nos soltar. Estávamos livres e, juntos com ele, corremos, nos afastando daquele local.

(...) Junto ao Sol, surge em certo momento no horizonte outro pássaro, que voa, brilhando, imponente, majestoso. Ora dourado como o Sol, ora púrpura como o crepúsculo. Ele nos fita, sobrevoando nossas cabeças... E por fim pousa à nossa frente.

Pedimos ajuda, pedimos orientação. Reconhecemos nele a Luz da Verdade; em seu semblante estavam todas as respostas. Como um velho amigo, ele nos disse que resgatava aqueles que se libertavam do sono da ignorância:

'Esperem a noite cair e sigam o caminho da lua, voem através das esferas, mas não se detenham... pois o palácio do Rei é sua morada, vocês são o adorno e o espelho de Sua Beleza... apressem-se...'

(...) Era tanta Perfeição, tanta Beleza, tanta Bondade. Enquanto chorávamos, imersos nesta Beleza, sentíamos a presença da Harmonia... girávamos nessa música silenciosa...

E fomos conduzidos aos limites, ultrapassamos o espaço, e agora víamos toda a galáxia, por fim todo o Universo. Sentíamos a presença do Poder e da Soberania, o Ser a contemplar o Mundo, ali onde Tempo e Eternidade se separavam. Não éramos capazes de nos reconhecer como nós mesmos, sentíamo-nos do tamanho do Universo, além do espaço, além do tempo...

E ali esperamos. Aos poucos nos aquietamos e mergulhamos em um silêncio profundo. O Universo havia parado. Estávamos imersos na Eternidade infinita. Foi quando surgiu novamente o Pássaro. Agora ele irradiava uma Luz indescritível.

(...) Ele contou a nossa história, nos revelou nossa natureza. Disse que a Presença do Rei era nossa morada, que em seus jardins habitávamos antes de sermos aprisionados. E que o Amor do Rei preenche cada átomo do Universo, que a saudade Dele é o seu chamado de retorno. Que os planetas giram enamorados, inebriados nesta Nostalgia e Beleza. E só aquele que se atira no espaço, perseguindo sua necessidade mais íntima, alcança os confins da Criação.

(...) Impulsionados, atraídos pelo Infinito, deixando para trás tudo que tinha sobrado de nós, fomos nos tornando Luz. Ao abrirmos uma espécie de porta, a Luz explodiu, nos rasgou, e foi como se tivéssemos saído de dentro de nós mesmos. Antes éramos pássaros de Luz, agora éramos somente Luz. Éramos reflexos da Luz da presença do Rei. Nossa Beleza e Perfeição emanavam Dele, assim como nosso próprio Ser.

Penetramos o Palácio, contemplamos o Trono, e então a Face.... a Luz era tanta, era tanta a Beleza e o Amor, que me senti sucumbindo, morrendo, mergulhando na Luz de sua Presença... E então eu não mais existia, tudo era Luz...Tudo era Ele... não existia mais eu, mais nada, só Ele...

Não sei quanto tempo passou, pois o tempo não existia, tampouco o espaço. Só sei que me sentia totalmente imerso nos braços de sua intimidade, diante de Sua Face, imerso em sua Perfeição.

Mas agora me sentia como a própria Criação, maior que todo o Universo, reflexo perfeito de seu Ser. Não havia imagem, ainda assim sua Face era a mais Bela. Não havia som, ainda assim Sua Presença era a mais sublime das músicas...

Então, de repente senti novamente o peso do resto da corrente atada em meus calcanhares... Pedi a ele que removesse os grilhões de minha perna de modo que pudesse servir em sua corte para sempre, mas ele respondeu: 'Apenas aquele que colocou os grilhões em sua perna poderá removê-los; eu mandarei um mensageiro com você para convencê-lo a remover estas correntes.'

(...) E conforme eu descia em giros, compreendi que era Ele sempre presente, criando e sendo criado, Criador e Criação. Compreendi que, no Amor dos meus olhos, Ele via o mundo, Ele via a Si mesmo. Compreendi então o propósito do Homem, o propósito da Criação.

Recordei a ilusão do esquecimento que vela o homem, que o torna um simples animal. Mas compreendi a natureza da vida, as dificuldades desta prisão temporal. Tudo agora era perfeito.

É no poder de nossa Recordação que está a chave. É dentro do Coração do próprio homem que se encontra a Porta. Mas ela foi esquecida, abandonada, o homem se tornou desesperado, egoísta, cego.

(...) A Luz do Amado explodiu dentro de mim em Amor e Compaixão. Uma Bondade emanava e redimia o Mundo, trazia nova Esperança aos homens. O dia amanheceu azul, alegre. E novamente compreendi que não há nada a não ser Ele. Que tudo é perfeito.
E num piscar de olhos levantei na minha cama e vi dissipar-se à minha frente a face daquele pássaro, sorrindo. E lá estava eu, chorando, sorrindo...

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